Bebidas sem álcool por saúde: realidade ou contradição social?

A queda no consumo de bebidas sem álcool entre jovens é questionada por dados sobre saúde mental.
Mercados como o de bebidas sem álcool, psicotrópicos e produtos de nicotina crescem de formas distintas.
A análise sugere que a narrativa de “busca por saúde” pode ocultar contradições profundas no comportamento do consumidor.

Nos últimos anos, cresce o relato de que parte da população estaria migrando para opções consideradas “mais saudáveis”, como bebidas sem álcool — cervejas 0.0%, vinhos e drinques zero. Esse fenômeno tem sido associado especialmente à Geração Z, que aparece em reportagens afirmando reduzir o consumo alcoólico em relação a gerações anteriores. Pesquisa recente mostra que muitos jovens brasileiros dessa faixa etária consomem menos álcool formalmente, redução atribuída a motivos de saúde e estilo de vida.

No entanto, a leitura simplista de que o consumo de álcool estaria diminuindo de forma generalizada e homogênea pode ser enganosa. Ao ampliar a visão para outros domínios de consumo — como medicamentos voltados à saúde mental e produtos de nicotina — surgem contradições que merecem análise aprofundada.

Saúde mental, medicamentos e consumo social

Um dos vetores mais impactantes dessa discussão é o crescimento no uso de medicamentos para saúde mental, que inclui antidepressivos, ansiolíticos e outros psicotrópicos. Levantamentos recentes indicam que o consumo desses medicamentos aumentou significativamente na última década. A cobertura jornalística do Conselho Federal de Farmácia destacou um crescimento de 18,6% no uso de medicamentos voltados à saúde mental entre 2022 e 2024, com antidepressivos representando cerca de 74% das prescrições.

Além disso, estudos sobre o comportamento da Geração Z sinalizam que grande parte desses jovens tem utilizado medicamentos em contextos não exclusivamente terapêuticos. Reportagem médica aponta que medicamentos como zolpidem e ansiolíticos acabam sendo empregados por jovens como mecanismo de enfrentamento do estresse ou de dificuldades emocionais.

Ao mesmo tempo, relatórios de saúde pública revelam alertas sobre uso irracional de medicamentos, especialmente psicotrópicos e ansiolíticos, em grupos etários mais jovens, o que parece destoar da narrativa de escolhas exclusivamente saudáveis de consumo.

Esses padrões contrastam com pesquisas que mostram que apenas 5% dos brasileiros fazem terapia regularmente, enquanto um número muito maior recorre a medicamentos para condições de saúde mental, sugerindo que a resposta farmacológica pode estar sendo utilizada de forma mais ampla do que o suporte psicossocial estruturado.

Entre cervejas sem álcool e padrões de consumo

Por outro lado, o mercado de bebidas sem álcool cresce de maneira visível em volume e oferta de produtos. Marcas tradicionais e emergentes têm ampliado suas linhas de cervejas, vinhos e drinques não alcoólicos, muitas vezes comunicados como escolhas voltadas à saúde e ao bem-estar. Reportagem econômica aponta que essa tendência tem sido observada com maior intensidade entre consumidores jovens, que supostamente buscam reduzir os riscos associados ao álcool.

No entanto, especialistas ponderam que a queda no consumo de bebidas alcoólicas por parte de jovens nem sempre está atrelada a escolhas de saúde. Em contextos internacionais, como nos Estados Unidos, parte da diminuição observada em certos segmentos se deve a razões econômicas, como menor renda disponível entre jovens no início da vida profissional — um fenômeno que também está presente no Brasil.

Outro ponto relevante é que a redução no consumo alcoólico formal não implica ausência de consumo de substâncias psicoativas ou comportamentos substitutivos. De fato, dados sobre produtos como cigarros eletrônicos e dispositivos de nicotina mostram expansão global contínua. Consultorias de mercado projetam que o setor de vaping e produtos relacionados pode atingir valores próximos a US$ 38 bilhões, sobretudo entre consumidores mais jovens.

Esses produtos, muitas vezes apresentados como alternativas “menos nocivas”, têm sido associados a padrões de uso recreativo que podem ser mais prevalentes entre adolescentes e jovens adultos, levantando preocupações relacionadas à saúde pública.

Perfil social, poder de compra e ambivalência

Ao comparar os públicos-alvo de cada um desses mercados — bebidas sem álcool, medicamentos para saúde mental e produtos de nicotina — emergem perfis socioeconômicos distintos. Consumidores que optam por bebidas sem álcool tendem a ser urbanos, com maior escolaridade e renda disponível que permite escolhas percebidas como mais saudáveis ou “premium”. Já o uso de medicamentos psicotrópicos não está necessariamente restrito a grupos de renda mais alta, refletindo uma necessidade de suporte em contextos de saúde mental mais amplos. Enquanto isso, produtos de nicotina eletrônica, com precificação relativamente acessível, têm maior penetração entre jovens com renda limitada.

Esse quadro se torna ainda mais complexo quando comparado ao poder de compra da população há 10 anos. A renda média dos brasileiros sofreu variações substanciais na última década, e muitos jovens hoje enfrentam maior pressão econômica, inflação em bens essenciais e restrições de acesso a serviços. Isso influencia diretamente as escolhas de consumo, muitas vezes mais determinadas por disponibilidade financeira do que por critérios de saúde ou bem-estar.

Assim, a narrativa de que a população, especialmente os mais jovens, estaria universalmente se distanciando de produtos potencialmente nocivos pode ser exagerada ou parcial. Parte desse fenômeno pode ser explicada por fatores econômicos, mudanças de contexto social e substituições de práticas recreativas, nem sempre associadas a reflexões profundas sobre saúde.

Uma nova face do consumo social

A análise dos dados sugere que a mudança de hábitos não é homogênea nem motivada exclusivamente pela preocupação com a saúde. Há segmentos que optam por bebidas sem álcool e estilos de vida percebidos como saudáveis, mas há também um crescimento no uso de medicamentos e de produtos que carregam riscos à saúde, especialmente entre públicos mais jovens e socialmente influenciados.

Nesse sentido, é possível questionar se a chamada “cultura de consumo saudável” é, de fato, uma mudança profunda de comportamento ou parte de uma adaptação social influenciada por fatores econômicos, modismos e novas formas de socialização. A coexistência de mercados divergentes — de bebidas 0.0% ao aumento dos psicotrópicos e produtos de nicotina — revela que a preocupação com saúde pode ser seletiva, circunstancial e nem sempre traduzida em escolhas de consumo consistentes ao longo da vida.

A compreensão desses fenômenos exige uma abordagem crítica que leve em conta não apenas dados de vendas, mas também contextos sociais, econômicos e culturais que moldam as práticas de consumo da população contemporânea.

E agora?

E agora, cabe aos empreendedores entender que o consumo não desapareceu — ele se transformou. A Geração Z não rejeita o prazer da bebida, mas exige novas narrativas e experiências. O crescimento das bebidas com terpenos, que unem inovação sensorial e apelo natural, mostra que há espaço para ousar. Da mesma forma, os ready to drink ganharam aceitação porque oferecem conveniência, praticidade e identidade imediata, provando que o público jovem valoriza soluções rápidas e autênticas. Para quem produz, o desafio é claro: criar portfólios híbridos, que dialoguem tanto com quem busca alternativas sem álcool quanto com quem deseja novas formas de consumo alcoólico. Isso significa investir em formatos menores, sabores diferenciados, colaborações com marcas culturais e comunicação que vá além da saúde — que fale de estilo de vida, pertencimento e experiência. O mercado não pede uma escolha binária entre álcool ou não álcool; pede inteligência estratégica para oferecer opções que reflitam os valores e desejos de cada público. Quem souber ler essa ambivalência não apenas sobreviverá, mas liderará a próxima fase da indústria.

Fontes

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