Bebidas da Copa: o Paraguai transformou o calor em cultura

As bebidas do Paraguai nasceram do encontro entre a tradição guarani, a erva-mate e a cana-de-açúcar trazida pelos colonizadores.

Muito além do tereré, o país preserva bebidas que acompanham o cotidiano, as festas religiosas e até os rituais de proteção popular.

Cada gole revela uma cultura onde natureza, espiritualidade e convivência caminham lado a lado.

Quando se fala nas bebidas do Paraguai, quase sempre a conversa termina na primeira palavra. Tereré. É compreensível. Poucas bebidas representam tão bem a identidade de um povo. Mas limitar a cultura líquida paraguaia ao tereré seria como resumir o Japão ao saquê ou a Escócia ao uísque.

O Paraguai construiu sua história entre dois grandes ingredientes: a erva-mate e a cana-de-açúcar. Durante séculos, essas duas plantas deram origem a bebidas completamente diferentes, mas igualmente presentes na vida cotidiana.

Algumas refrescam os dias de calor intenso. Outras aquecem as manhãs de inverno. Algumas acompanham celebrações religiosas. Outras fazem parte da mesa de praticamente todas as famílias.

Poucos países conseguiram construir uma identidade etílica tão diversa utilizando apenas dois ingredientes centrais.

Muito antes da garrafa, existia a erva

A relação dos paraguaios com a erva-mate começou muito antes da formação do país. Os povos guaranis já utilizavam a planta, conhecida como ka’a, tanto na alimentação quanto em preparações medicinais e rituais.

Mais do que uma bebida, ela fazia parte da maneira de compreender a natureza. Com a chegada dos missionários jesuítas, o cultivo da erva ganhou escala.

As missões organizaram o plantio, aperfeiçoaram técnicas de secagem e ajudaram a transformar a erva-mate em um importante produto comercial da América do Sul. Nascia ali uma tradição que atravessaria séculos.

Tereré: quando o calor molda uma cultura

Tereré paraguaio

O clima explica boa parte da história do tereré. Em um país onde as temperaturas frequentemente ultrapassam os 40 °C durante o verão, beber uma infusão quente nunca foi a solução mais confortável. Foi assim que a água gelada passou a ocupar o lugar da água quente.

Mas o verdadeiro diferencial não está apenas na temperatura. Em muitas casas paraguaias, o tereré é preparado com uma infusão de ervas conhecida como pohã ñana. Hortelã, burrito, cedrón, capim-limão, camomila e dezenas de plantas aromáticas são utilizadas para perfumar a bebida.

Cada família possui suas preferidas. Algumas são escolhidas pelo sabor. Outras fazem parte da medicina popular, tradicionalmente associadas à digestão, ao relaxamento ou ao alívio de pequenos desconfortos, embora muitos desses usos pertençam ao conhecimento popular e não possuam comprovação científica conclusiva.

Mais do que matar a sede, o tereré organiza a convivência. A guampa circula entre amigos. A bomba passa de mão em mão. Ninguém bebe sozinho por muito tempo.

Cocido: a erva que também aquece

Se o tereré representa o verão, o cocido ocupa lugar semelhante durante os dias frios. Apesar de muitas vezes ser descrito como um “mate quente”, sua história é diferente.

Tradicionalmente, a erva-mate era levemente tostada antes da infusão, desenvolvendo aromas mais intensos e notas que lembram caramelo e castanhas. Uma das versões mais tradicionais é o cocido queimado, preparado dissolvendo açúcar caramelizado em água antes da infusão da erva.

O resultado é uma bebida de sabor profundo, muito consumida no café da manhã e nas escolas paraguaias.

Enquanto o tereré reúne as pessoas sob a sombra das árvores, o cocido costuma acompanhar o início das manhãs.

São duas bebidas produzidas com o mesmo ingrediente, mas adaptadas a momentos completamente diferentes da vida cotidiana.

A caña seguiu um caminho próprio

A cana-de-açúcar chegou ao Paraguai durante o período colonial. Com ela surgiu outro capítulo importante das bebidas do Paraguai. A Caña Paraguaya.

Embora frequentemente comparada à cachaça brasileira, ela segue uma lógica diferente de produção. Tradicionalmente, sua matéria-prima é o melaço obtido durante a fabricação do açúcar, e não o caldo fresco da cana utilizado na cachaça. Essa diferença influencia diretamente o perfil aromático da bebida.

Ao longo do tempo, pequenas destilarias espalhadas pelo país desenvolveram métodos próprios de fermentação e destilação, preservando uma tradição que permanece fortemente ligada ao mercado interno.

Hoje, alguns produtores também investem em versões envelhecidas e de maior qualidade, valorizando uma bebida que durante décadas permaneceu restrita ao consumo local.

Antes do destilado existe o mosto

Nem toda bebida feita de cana precisa passar pelo alambique. Em muitas cidades do interior, o mosto continua sendo uma das formas mais simples e tradicionais de consumir a cana-de-açúcar.

Extraído diretamente da moagem, o caldo é servido fresco, normalmente bem gelado. Seu sabor extremamente doce preserva características que desaparecem após a fermentação e a destilação.

Mais do que uma bebida refrescante, o mosto representa uma ligação direta entre agricultura e alimentação, lembrando que a história da cana começa muito antes de se transformar em aguardente.

Carrulim: sete goles contra o azar

Carrulim

Entre todas as bebidas paraguaias, talvez nenhuma reúna tanta simbologia quanto o Carrulim.

Seu nome nasce da combinação de três ingredientes. Ca de caña. Ru de arruda (ruda). Lim de limão.

Segundo a tradição popular, a bebida deve ser consumida na manhã de 1º de agosto, geralmente em sete goles. O costume está ligado à crença de que o Carrulim protege contra doenças, afasta os males do inverno e atrai prosperidade para o restante do ano.

A tradição mistura elementos da medicina popular guarani, do uso ritual das plantas e das celebrações religiosas introduzidas durante o período colonial.

Independentemente da crença de cada pessoa, o Carrulim permanece como um dos exemplos mais interessantes de como bebidas podem carregar significados muito além do sabor.

Um país onde duas plantas contam uma história

As bebidas do Paraguai mostram que identidade não depende da quantidade de bebidas produzidas. Ela nasce da relação que um povo constrói com seus ingredientes.

A erva-mate deu origem ao tereré e ao cocido. A cana transformou-se em caña, mosto e Carrulim.

Entre elas permanecem vivos conhecimentos indígenas, influências jesuíticas, tradições agrícolas e costumes familiares transmitidos há gerações. Talvez essa seja a maior contribuição do Paraguai para a cultura das bebidas.

Mostrar que, às vezes, duas plantas são suficientes para contar a história inteira de um país.

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