As periferias brasileiras ampliam sua influência sobre o mercado de consumo e movimentam bilhões de reais por ano. Esse novo cenário tem levado a indústria de bebidas a desenvolver produtos alinhados aos hábitos de socialização e praticidade. O crescimento das bebidas prontas para beber (RTDs) é um dos principais reflexos dessa transformação.
As periferias brasileiras deixaram de ser vistas apenas como grandes mercados consumidores para ocupar um papel de destaque na criação de tendências. Nos últimos anos, empresas de diferentes segmentos passaram a observar com mais atenção os hábitos de consumo das comunidades, influenciando desde campanhas publicitárias até o desenvolvimento de novos produtos.
Segundo o estudo Tracking das Favelas, realizado pelo NÓS (Novo Outdoor Social), mais de 17 milhões de pessoas vivem nas mais de seis mil comunidades espalhadas pelo país. Juntas, elas movimentam um potencial de consumo estimado em R$ 167 bilhões por ano, com renda média mensal de R$ 3.036 por habitante.
Os números reforçam uma mudança que vai além da economia. Hoje, as periferias brasileiras também influenciam linguagem, comportamento, moda, música e, naturalmente, o setor de alimentos e bebidas.
Consumo coletivo inspira novos produtos

A transformação do mercado aparece de forma clara na categoria de bebidas prontas para beber, conhecidas internacionalmente como RTDs (Ready to Drink).
Esse segmento reúne coquetéis e bebidas já preparadas, prontas para o consumo, eliminando a necessidade de misturar ingredientes ou preparar drinques. A praticidade, aliada ao preço acessível e à variedade de sabores, tem atraído principalmente consumidores jovens e ocasiões de consumo compartilhado.
De acordo com projeções da Euromonitor International, a produção brasileira de RTDs deverá crescer cerca de 27,8% até 2029, passando de 178,9 milhões para 228,6 milhões de litros.
O avanço acompanha mudanças importantes no comportamento do consumidor, que busca produtos adequados para encontros entre amigos, festas e eventos, sem abrir mão da conveniência.
Outro levantamento, realizado pelo Instituto Data Favela em parceria com a CUFA, mostra que fatores como praticidade, qualidade e identificação cultural estão entre os principais critérios considerados pelos moradores das comunidades no momento da compra.
Esse cenário tem levado fabricantes a desenvolver embalagens maiores, novos sabores e formatos voltados ao consumo coletivo.
Mercado acompanha novos hábitos
Para especialistas em marketing e comportamento do consumidor, acompanhar os movimentos que surgem nas comunidades tornou-se uma necessidade para empresas que desejam permanecer competitivas.
Mais do que acompanhar tendências, a indústria passou a reconhecer que muitos hábitos populares acabam sendo incorporados pelo mercado nacional.
Um exemplo é a popularização dos chamados “copões”, bebidas preparadas para consumo compartilhado que ganharam espaço em festas e encontros informais. Inspiradas nesse comportamento, diversas empresas passaram a lançar produtos que oferecem praticidade sem exigir preparo adicional.
Entre elas está a Missiato, fabricante da marca Corote, que lançou recentemente uma linha de coquetéis gaseificados em embalagens de um litro. Segundo a empresa, o desenvolvimento do produto foi baseado na observação de hábitos reais de consumo e na busca por formatos voltados à socialização.
Independentemente da marca, o movimento revela uma tendência mais ampla: produtos desenvolvidos a partir de comportamentos que surgem nas comunidades brasileiras começam a ocupar espaço nas gôndolas de supermercados, lojas de conveniência e bares em todo o país.
O crescimento das vendas também confirma esse movimento. Dados da plataforma Zig apontam que as bebidas prontas registraram aumento de 94% nas vendas durante o Carnaval de 2026 em bares e eventos, reforçando a preferência do consumidor por produtos que unem conveniência, sabor e facilidade de consumo.
Ao observar esse cenário, fica evidente que as periferias brasileiras deixaram de apenas acompanhar as tendências do mercado. Hoje, elas ajudam a defini-las.
Mais conectados digitalmente e atentos às novidades, esses consumidores exercem influência crescente sobre decisões da indústria, estimulando mudanças em embalagens, sabores, estratégias de comunicação e experiências de consumo.
Para o setor de bebidas, compreender esse comportamento tornou-se uma oportunidade de inovação. Para o consumidor, significa encontrar nas prateleiras produtos cada vez mais alinhados aos seus hábitos e momentos de convivência.
Fontes
- Tracking das Favelas (NÓS – Novo Outdoor Social)
- Instituto Data Favela e CUFA
- Euromonitor International
- Plataforma Zig



