Ao contrário do que muitos imaginam, a cultura das bebidas do Catar não é definida pela ausência de álcool, mas pela presença de rituais, hospitalidade e séculos de tradição.
O país desenvolveu uma identidade líquida baseada no café árabe, no chá karak, nas tâmaras e nas bebidas fermentadas consumidas pelos povos beduínos muito antes da descoberta do petróleo.
Conhecer as bebidas do Catar é entender como religião, comércio e vida no deserto moldaram uma das culturas mais singulares do Oriente Médio.
Muito além da proibição do álcool
Quando o Catar sediou a Copa do Mundo de 2022, um dos assuntos mais comentados foi a restrição ao consumo de bebidas alcoólicas nos estádios. Para muitos estrangeiros, parecia que aquele era um país onde praticamente não existia cultura das bebidas.
Nada poderia estar mais distante da realidade.
A história do Catar não foi construída em torno da cerveja, do vinho ou dos destilados. Ela nasceu muito antes, entre caravanas que cruzavam o deserto, mercadores que navegavam pelo Golfo Pérsico e famílias beduínas que transformaram o ato de servir uma bebida em um dos maiores símbolos de respeito ao visitante.
No Catar, uma bebida raramente é apenas uma bebida. Ela representa acolhimento, honra, convivência e identidade cultural.
Gahwa: o café que recebe antes das palavras

Poucas bebidas possuem um significado tão profundo quanto o Gahwa, também conhecido como café árabe. Preparado com grãos levemente torrados e aromatizado com cardamomo, ele pode receber ainda açafrão, cravo ou água de rosas, dependendo da tradição familiar e da região.
Seu preparo exige calma. Seu serviço exige respeito.
O café é servido em uma dallah, a tradicional cafeteira árabe de bico alongado, enquanto o convidado recebe pequenas porções em uma xícara sem alça chamada finjan. O costume determina que o anfitrião sirva primeiro a pessoa de maior prestígio entre os presentes.
Também é tradição oferecer pequenas quantidades de café, permitindo que a bebida seja servida diversas vezes durante a conversa.
Quando o visitante não deseja mais café, basta balançar delicadamente a xícara antes de devolvê-la ao anfitrião. Sem esse gesto, entende-se que outra porção deve ser servida.
Mais do que um protocolo, trata-se de um ritual social preservado há séculos entre os povos da Península Arábica.
Não por acaso, o ritual do café árabe foi reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Karak: o chá que conquistou o Catar
Curiosamente, a bebida mais consumida no cotidiano catariano não nasceu no país.
O Karak Tea tem origem no tradicional masala chai do sul da Ásia e chegou ao Catar junto com trabalhadores vindos da Índia, do Paquistão e de Bangladesh durante o século XX.
Os catarianos adotaram a receita e a transformaram em parte de sua rotina. Hoje é difícil encontrar um bairro que não possua uma pequena cafeteria especializada em karak.
Preparado com chá preto forte, leite, açúcar e cardamomo, ele costuma ser servido extremamente quente. Em muitas receitas também aparecem açafrão, gengibre, canela ou cravo.
O Karak acompanha reuniões informais, intervalos de trabalho e encontros familiares.Durante o Ramadã, seu consumo aumenta ainda mais após o pôr do sol, quando as famílias encerram o jejum diário.
Poucas bebidas representam tão bem a capacidade do Catar de incorporar influências estrangeiras sem perder sua identidade.
Laban: a bebida que nasceu da vida no deserto

Muito antes da chegada da refrigeração, conservar alimentos era um dos maiores desafios enfrentados pelos povos beduínos. Foi dessa necessidade que surgiu o Laban, uma bebida fermentada produzida a partir do leite.
Dependendo da tradição local, pode ser preparada com leite de vaca, cabra ou camela. Seu sabor levemente ácido e refrescante tornou-se ideal para enfrentar as altas temperaturas do Golfo.
Além de ajudar na hidratação, o laban oferece boa quantidade de proteínas, minerais e bactérias benéficas produzidas durante a fermentação.
Até hoje ele acompanha refeições cotidianas e permanece entre as bebidas mais consumidas da região.
Sua história mostra que, em ambientes extremos, a fermentação era antes de tudo uma estratégia de sobrevivência.
As tâmaras: muito mais do que um alimento
Nenhum ingrediente aparece com tanta frequência na mesa catariana quanto a tâmara.
Ela acompanha o café. Está presente em sobremesas. Integra xaropes, bebidas e preparações tradicionais. Sua importância vai além da gastronomia.
Durante o Ramadã, milhões de muçulmanos quebram o jejum consumindo tâmaras antes das demais refeições, seguindo uma tradição associada ao profeta Maomé.
No Catar, oferecer tâmaras junto ao café é um gesto clássico de hospitalidade.
A combinação entre o leve amargor do gahwa e a doçura natural da fruta tornou-se um dos símbolos da cultura local.
Especiarias que cruzaram oceanos
Embora o Catar seja um país de território relativamente pequeno, sua posição estratégica no Golfo Pérsico o colocou durante séculos no caminho de importantes rotas comerciais.
Mercadores vindos da Índia, da Pérsia, da África Oriental e da Península Arábica transportavam especiarias, tecidos, perfumes e alimentos. Essas trocas ajudaram a incorporar ingredientes que hoje parecem inseparáveis da culinária local.
Cardamomo, açafrão, canela, cravo, água de rosas e água de flor de laranjeira aparecem em cafés, chás e sobremesas.
São sabores que contam uma história de comércio muito anterior à riqueza proporcionada pelo gás natural.
O álcool e a identidade catariana
É impossível falar sobre as bebidas do Catar sem mencionar o papel da religião.
O Islã desencoraja o consumo de bebidas alcoólicas, e essa orientação moldou profundamente a cultura alimentar da região ao longo dos séculos. No entanto, a realidade contemporânea é mais complexa do que muitos imaginam.
Estrangeiros residentes e turistas podem consumir bebidas alcoólicas em hotéis, bares e estabelecimentos autorizados pelo governo.
Durante a Copa do Mundo de 2022, as regras para venda de álcool se tornaram tema de debates internacionais, evidenciando o desafio de conciliar grandes eventos globais com tradições culturais locais.
Mesmo assim, reduzir a cultura das bebidas do Catar ao debate sobre álcool significa ignorar séculos de história. A verdadeira identidade líquida do país sempre esteve ligada ao café, ao chá e à hospitalidade.
Uma cultura onde servir vale mais do que beber
Ao observar a tradição catariana, fica evidente que o valor das bebidas não está apenas no conteúdo da xícara. Está no gesto.
Servir café significa acolher. Oferecer tâmaras demonstra generosidade. Preparar karak para amigos reforça vínculos sociais. Compartilhar laban lembra a adaptação de um povo às condições extremas do deserto.
Enquanto muitas culturas celebram a bebida pelo seu teor alcoólico, o Catar construiu uma identidade baseada no encontro entre pessoas. Talvez essa seja sua maior lição.
Nem toda grande cultura etílica nasce da fermentação ou da destilação. Algumas nascem da hospitalidade.
Fontes consultadas
Livros
- Coffee: A Global History — Jonathan Morris
- The New Book of Middle Eastern Food – Claudia Roden
- A History of the Arab Peoples — Albert Hourani



